“Há um boom na Telemedicina” - Entrevista com Chao Lung Wen

CREMESP
01.02.2008

O conceito de telemedicina surgiu por volta dos anos 50, em função da corrida espacial e da Guerra Fria, quando as grandes potências começaram a enviar os astronautas ao espaço para tentar ampliar seus domínios. Um dos problemas dessas missões espaciais e bélicas era encontrar uma solução para garantir assistência à saúde dos astronautas, a milhares de quilômetros da Terra, ou a soldados em territórios de conflito. Foi a partir desse desafio que a telemedicina começou a ser desenvolvida. E não parou mais de crescer. Nesta entrevista, o médico Chao Lung Wen, coordenador do Núcleo de Telemedicina e Telesaúde do Hospital das Clínicas da Fmusp e membro do Comitê Executivo de Telemedicina e Telesaúde do Ministério da Saúde, explica ao Jornal do Cremesp o atual estágio dessa área, suas conquistas e desafios nos próximos anos


A telemedicina é um recurso mais acessível hoje?

A popularização da telemedicina teve início na década de 90 em decorrência dos custos mais acessíveis das novas tecnologias e das telecomunicações. Hoje o que se vê é um boom da área. Nos próximos dez anos, a telemedicina deve se tornar uma das prioridades das políticas de saúde pública, tanto no cenário internacional quanto nacional, sendo também um dos grandes recursos provedores de saúde para a área privada. Hoje, a telemedicina é um recurso pelo qual a área médica consegue atuar tanto na prevenção de doenças quanto no outro extremo, o da reintegração social de pessoas com alguma seqüela. A telemedicina hoje pode ser definida como o uso de modernas tecnologias de informática e telecomunicações, dentre outros recursos, para que o médico consiga desenvolver algo maior – o que chamamos de cadeia produtiva de saúde.


Quais as principais áreas em que a telemedicina se aplica?

A telemedicina trabalha em três grandes áreas: a assistencial, voltada à prevenção de doenças, que envolve a melhoria da qualidade de atendimento e serviços oferecidos ao paciente. Nela são utilizados recursos de tele-assistência e televigilância, com o intuito de monitorar e acompanhar a ocorrência de epidemias, o agravamento das endemias etc – uma ação de vigilância epidemiológica. Também existe a área da teleducação interativa, que visa aprimorar a qualidade da formação dos estudantes e da educação médica continuada. E, por fim, temos a área de pesquisa multicêntrica, cujo objetivo principal é unir grandes centros de pesquisa por meio da telemedicina.


Na área médica, qual o estágio da informática e das telecomunicações no Brasil e no exterior?

No exterior, os países classificados como desenvolvidos estão mais evoluídos na área da telecomunicação, notadamente aqueles que apresentavam grandes problemas relacionados ao ambiente, a exemplo do Canadá e dos países escandinavos. Nesses países, devido ao inverno rigoroso, existe um sério problema de locomoção, o que abriu caminho à aplicação da telemedicina na saúde pública. No Brasil, houve um despertar de órgãos governamentais, principalmente entre 2004 e 2005, quando passaram a encarar a telemedicina como algo aplicável às políticas de saúde. No momento, existem no país três grandes projetos governamentais em telemedicina.


Quais são eles?

O primeiro é o projeto de telemática, em apoio à atenção primária do Ministério da Saúde, o qual faz uso da telemedicina para melhorar a qualidade do trabalho das equipes do Programa Saúde da Família (PSF). O segundo é um projeto do Ministério da Ciência e Tecnologia denominado Estação Digital Médica, do Programa Institutos do Milênio, do qual um de seus derivados é o projeto Jovem Doutor, com o envolvimento de estudantes, que faz uso da telemedicina para melhorar a qualidade de vida das pessoas carentes ou que vivem em regiões remotas. Por fim, o terceiro grande projeto foi batizado de Rute (Rede Universitária de Telemedicina), vinculado à Rede Nacional de Ensino e Pesquisa. Eu diria que o Brasil caminha a passos largos em telemedicina, apesar de termos algumas limitações relacio¬nadas ao sistema de comunicação e aos preços caros dos equipamentos. Mesmo assim temos o projeto de atenção primária do Ministério da Saúde, um dos maiores projetos-piloto de telemedicina aplicado para equipes de Saúde da Família do mundo, envolvendo nove estados brasileiros – o que é formidável para um projeto-piloto.


Na sua opinião, qual é a situação da formação e do trabalho do médico diante do grande número de instrumentos para diagnósticos hoje disponíveis?

Muitas vezes os estudantes estão despreparados para enfrentar problemas críticos. Nesse sentido, a telemedicina é formidável porque eu consigo colocar os alunos em um ambiente de simulação no qual é possível desenvolver e discutir valores de conduta e como lidar com o paciente em situações difíceis. O uso da telemedicina é importante para formar o médico moderno, aquele que aprende a precisão diagnóstica e também tem grandes qualidades para aplicar os diferentes conceitos de saúde, assim como saber lidar com as pessoas, principalmente em situações críticas.


Como deve ficar a realidade dos hospitais públicos em relação às novas tecnologias?

Eu acredito que os hospitais públicos vão acabar chegando à frente dos privados. Como o Governo Federal começou a investir nesse setor, eu diria que em determinado momento haverá mais hospitais universitários com recursos de telemedicina do que os privados. Os hospitais universitários federais, via esse projeto da Rute, até meados deste ano, deverão somar cerca de 60 instituições interligadas por uma rede de telemedicina, sem contar com os hospitais universitários estaduais. Além disso, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia, interliga esses hospitais entre si para compartilhar trabalhos.


Como estão equipadas as universidades atualmente?

Além das 65 universidades que hoje fazem parte da Rute, devemos expandir o projeto para mais 32 pontos. Até o fim de 2008 ou meados de 2009, deveremos ter por volta de 110 universidades com infra-estrutura para a telemedicina. Aqui no complexo HC temos 14 equipamentos de videoconferência e já integramos todos os seus 320 mil metros quadrados por meio de uma rede especial de telemedicina, interligado ao Hospital Universitário da USP, ao Centro de Saúde do Butantã, à Faculdade de Odontologia de Bauru e à Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, entre outras.







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